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Guia Completo de Sete Cidades: Miradouros, Quando Ir e Quanto Tempo Precisa

Guia local de Sete Cidades, em São Miguel — os miradouros que valem mesmo a pena, onde estacionar e a regra da manhã que decide se chega a ver as lagoas.

Vista do Miradouro da Vista do Rei sobre as lagoas gémeas de Sete Cidades — São Miguel, Açores

Se só tem um dia em São Miguel, Sete Cidades é o sítio onde o deve passar. É uma caldeira com duas lagoas na ponta oeste da ilha — o género de paisagem que leva as pessoas a comprar o bilhete de avião — e é também o sítio onde mais gente se engana. Sobem lá às 13h, encontram a cratera inteira dentro da nuvem, tiram uma fotografia de nada cinzento e vão-se embora desiludidos.

Este guia é a forma como cá se faz. Cobre os miradouros que valem o tempo, os que não valem, as regras de horário que ninguém conta e um plano de meio dia e de dia inteiro, prontos a copiar.

O que é Sete Cidades?

Sete Cidades é uma caldeira vulcânica com cerca de cinco quilómetros de diâmetro, formada por uma série de erupções que escavaram a extremidade ocidental de São Miguel. Lá dentro ficam duas lagoas ligadas entre si: a Lagoa Verde e a Lagoa Azul, separadas por uma pequena ponte. Uma aldeia de cerca de 800 pessoas vive na margem, entre as duas, e a crista da cratera forma uma linha contínua que se pode percorrer de carro, a pé ou de bicicleta, com vistas para todos os lados.

O nome “Sete Cidades” vem de uma lenda medieval portuguesa, não de nada que se veja hoje. Não há cidade nenhuma. Há campos, a aldeia, as lagoas e um céu sempre dramático.

Qual é a melhor altura para visitar Sete Cidades?

A coisa mais importante a perceber sobre Sete Cidades é que a caldeira faz o seu próprio tempo.

O ar quente da costa sobe pela vertente exterior da cratera. Ao encontrar o ar mais frio da crista, condensa e transforma-se em nuvem, que escorrega para dentro da caldeira e se acumula no fundo — por vezes tapando as lagoas por completo enquanto o resto de São Miguel continua ao sol. Isto acontece normalmente a meio da manhã e às vezes levanta a meio da tarde.

A regra de cá é simples:

Esteja nos miradouros antes das 10h. Se conseguir às 8h, ainda melhor.

Todo o resto decorre daí. A luz da manhã também é a melhor para fotografia — as lagoas estão voltadas grosso modo para nordeste, por isso apanham luz quente ao nascer do sol e luz dura ao meio-dia.

E se a sua manhã estiver encoberta? Não dê o dia por perdido. O tempo açoriano vira numa hora. Faça outra coisa durante duas horas (pequeno-almoço nos Mosteiros, a Lagoa do Canário para outro ângulo) e volte a tentar.

Padrões sazonais que convém conhecer

A física do microclima não muda de mês para mês, mas as probabilidades mudam. De abril a junho é a janela mais fiável — os ventos alísios estão mais fracos, a nuvem forma-se mais devagar e às vezes ainda se veem as lagoas às 11h. Julho e agosto são mais quentes, mas a taça de nuvem forma-se com mais força e mais cedo na maioria dos dias. A regra das 8h passa a ser das 7h30. Setembro e outubro são o segredo mais bem guardado: as manhãs limpas são quase tão frequentes como em junho, as multidões de verão foram embora e o ar está mais fresco.

De novembro a março é a época do jogador. Tanto pode calhar-lhe uma manhã de postal com a crista só para si, como pode encontrar a cratera engolida em branco três dias seguidos. Planeie em função disso: no inverno, faça uma viagem de cinco noites no mínimo, para ter várias oportunidades. O mesmo se aplica à Lagoa do Fogo, na espinha central da ilha, que tem exatamente o mesmo comportamento de nuvem.

Há ainda um padrão de que só se fala cá: a manhã a seguir a uma frente forte. Quando um sistema de baixas pressões acabou de passar e o vento roda para norte ou nordeste, a crista aguenta-se limpa mais tempo do que o normal, às vezes o dia inteiro. Veja a previsão local: se disser vento de norte no dia a seguir à chuva, mude os planos e suba à crista.

Que miradouros de Sete Cidades valem a pena?

Há cerca de uma dúzia de miradouros assinalados em redor de Sete Cidades. Quase todos os blogues os listam a todos. A maior parte é esquecível. Estes são os quatro que deve mesmo planear, por ordem de prioridade.

1. Boca do Inferno

A melhor fotografia de Sete Cidades, e não é aquela onde a maioria pára. A Boca do Inferno fica a sul da mais conhecida Vista do Rei e enquadra as duas lagoas mais a aldeia numa só composição, com a crista a curvar dramaticamente ao longe.

Como lá chegar: estacione na pequena bolsa assinalada “Lagoa do Canário / Boca do Inferno”, na EN9-1A. Dali é uma caminhada plana de quinze minutos por entre eucaliptos e laurissilva até ao miradouro. Leve calçado fechado — o trilho fica com lama depois da chuva, o que é quase sempre.

É uma visita rápida: conte 30 a 45 minutos entre sair do carro e voltar a ele.

2. Vista do Rei

O clássico. A Vista do Rei é onde vai ver a fotografia que o fez querer vir. Fica mesmo à beira da estrada, é fácil de alcançar e a vista está de facto à altura do postal — mas enche-se de gente e o ângulo é ligeiramente menos interessante do que o da Boca do Inferno.

Não perca o hotel abandonado. O Monte Palace, um enorme hotel de luxo dos anos 80 que abriu, faliu e foi abandonado em menos de dois anos, fica na Vista do Rei num estado de decadência quase artística. Percorrer os corredores vazios e olhar para as lagoas a partir dos pisos superiores em ruínas é uma experiência que fica. Oficialmente não se deve entrar — na prática toda a gente entra e não há vedações. Use o bom senso, veja onde põe os pés e não vá lá sozinho depois de escurecer.

3. Miradouro da Grota do Inferno

Ligeiramente fora do circuito principal, no lado sul da caldeira, este miradouro dá-lhe uma perspetiva lateral que quase ninguém vê. A cratera abre-se por baixo e normalmente ainda se distingue a torre da igreja na aldeia. É sempre sossegado, mesmo em pleno agosto.

4. Lagoa do Canário

Tecnicamente é uma lagoa mais pequena e separada, já fora da caldeira principal, mas o miradouro é dos melhores da zona e praticamente nenhum autocarro de excursão pára aqui. Do parque de estacionamento caminha-se uns cem metros até a uma plataforma de madeira sobre uma lagoa mais pequena, perfeitamente redonda e rodeada de hortênsias no verão.

É para aqui que deve voltar quando Sete Cidades estiver dentro do nevoeiro.

Vista panorâmica das lagoas gémeas de Sete Cidades e da Lagoa de Santiago — São Miguel, Açores

Dentro da cratera: a aldeia e a margem da lagoa

A maioria só vê Sete Cidades de cima. É um erro. A descida até ao fundo da caldeira compensa o desvio por duas razões:

  1. Percebe-se a escala. As lagoas são maiores do que parecem lá de cima — só a Lagoa Azul tem cerca de 300 hectares.
  2. Há uma aldeia a funcionar lá em baixo. Tem igreja, dois ou três cafés, uma loja pequena e um ritmo lento que Ponta Delgada perdeu há décadas.

Estacione junto à zona de merendas à beira da lagoa (há um parque gratuito sinalizado a partir da estrada principal que atravessa a aldeia). Dali pode caminhar pela margem, atravessar a pequena ponte de pedra entre a Verde e a Azul e chegar à casa de aluguer de caiaques (aberta sensivelmente de maio a outubro, cerca de 10 a 15 euros por hora).

Se estiver com fome, o Green Love é o destaque da aldeia — almoço descontraído com produtos locais e peixe, com esplanada sobre a lagoa. Aceitam dinheiro e cartão, e enche ao fim de semana.

Quanto tempo é preciso em Sete Cidades?

Tempo disponívelO que dá mesmo para fazer
2 horas (passagem rápida)Vista do Rei e mais um miradouro. Tira a fotografia e vai-se embora.
Meio diaCaminhada até à Boca do Inferno, Vista do Rei com o hotel abandonado, descida à aldeia e passeio pela margem. É o ponto ideal para a maioria.
Dia inteiroAcrescenta o trilho da crista (uma parte — a volta completa são cerca de 12 km), caiaque na lagoa, almoço na aldeia e os Mosteiros no regresso, para o pôr do sol.

Quase toda a gente subestima e reserva duas horas. Reserve meio dia. Os Açores recompensam quem vai devagar.

O trilho da crista (para quem caminha)

Se estiver em forma e o tempo ajudar, o trilho PR03 é a caminhada de Sete Cidades. Segue pela orla ocidental da crista, a partir da Vista do Rei para sul, com a caldeira inteira a cair de um lado e o Atlântico do outro. Pode fazer o que quiser e voltar para trás a qualquer momento — mas os primeiros três quilómetros são os mais bonitos e levam cerca de uma hora em cada sentido.

Notas práticas:

  • O vento na crista é forte, mesmo quando está calmo na aldeia
  • Leve um casaco, o microclima é bastante mais fresco do que na costa
  • Não há sombra nem água pelo caminho, planeie em conformidade
  • As marcas do trilho são riscas vermelhas e amarelas em pedras e estacas

Erros a evitar

  • Ir ao meio-dia. Nunca é demais dizê-lo. As pessoas chegam às 13h, encontram nevoeiro e publicam uma fotografia triste. Esteja na crista antes das 10h.
  • Saltar a aldeia. Quase toda a gente só vê Sete Cidades de cima. A vista da margem a olhar para cima, para a crista, é a outra metade da experiência.
  • Confiar na previsão de Ponta Delgada. Sete Cidades tem microclima próprio. Veja as webcams da zona (há uma na igreja) ou simplesmente vá ver.
  • Ir a um domingo de verão. Os açorianos vão a Sete Cidades ao domingo. Somados aos autocarros de excursão, os miradouros mais populares ficam cheios. Terça ou quarta é mais calmo.
  • Esquecer o fato de banho. A água das lagoas é doce, calma, surpreendentemente amena em agosto, e entra-se a pé pela margem da aldeia.

Um plano de meio dia, pronto a copiar

É exatamente assim que eu faria Sete Cidades num dia normal, a partir de Ponta Delgada:

07:30 — Sair de Ponta Delgada (cerca de 30 minutos de carro). 08:00 — Estacionar na bolsa da Boca do Inferno / Lagoa do Canário. Quinze minutos a pé até à Boca do Inferno. Ficar vinte minutos. 09:00 — Paragem rápida no miradouro da Lagoa do Canário, no regresso. 09:30 — Vista do Rei. Entrar no antigo hotel Monte Palace, com cuidado. Ficar 30 a 40 minutos. 10:30 — Descer à caldeira. Estacionar junto à zona de merendas da aldeia. 11:00 — Caminhar pela margem entre a Lagoa Verde e a Lagoa Azul. Atravessar a ponte entre as duas. 12:00 — Almoço no Green Love, na aldeia. 13:30 — Ou seguir para os Mosteiros e a costa, ou uma hora de caiaque, ou voltar à crista para o trilho, se o tempo continuar a ajudar.

É meio dia que apanha o essencial sem correrias. Junte os Mosteiros e uma paragem ao pôr do sol e passa a ser um dia inteiro.

O que ler a seguir

  • A planear a viagem completa a São Miguel? O itinerário de 5 dias em São Miguel encaixa Sete Cidades numa semana e mostra como sequenciar com as Furnas, a Lagoa do Fogo e a costa leste sem andar para trás e para a frente.
  • A outra coisa obrigatória em São Miguel são as Furnas — a aldeia vulcânica onde o almoço coze debaixo de terra e as termas estão a 38 °C todo o ano. Faça Sete Cidades e as Furnas em dias separados, ficam em pontas opostas da ilha.
  • Para a terceira grande caldeira, veja o guia da Lagoa do Fogo — a lagoa mais intocada de São Miguel, com uma praia de areia clara a que se desce a pé.
  • Quando vir para apanhar melhor tempo? O guia sobre a melhor altura para visitar os Açores vai mês a mês. A regra da manhã em Sete Cidades aplica-se o ano inteiro, mas o verão dá a janela limpa mais larga.
  • E se preferir não montar tudo isto sozinho, o Pocket Guide Azores cria o itinerário dia a dia por si — escolhe os sítios e recebe o plano.

Sete Cidades é um dos sítios mais fotografados de Portugal. Bem feito, está à altura da fama. Mal feito, é um parque de estacionamento dentro do nevoeiro. Agora já sabe como se faz bem.

Perguntas frequentes

Qual é o melhor miradouro de Sete Cidades? +

A Vista do Rei é o mais conhecido, mas a Boca do Inferno dá a melhor fotografia — fica a quinze minutos a pé do parque de estacionamento e enquadra as duas lagoas com a aldeia pelo meio. Quem cá vive gosta também da Lagoa do Canário, que fica mais perto de Ponta Delgada e quase sempre tem menos gente do que os miradouros principais.

Quanto tempo é preciso em Sete Cidades? +

Meio dia é o mínimo realista para ver os miradouros principais (Vista do Rei, Boca do Inferno, Miradouro da Grota do Inferno) e descer até à aldeia ou à margem da lagoa. Um dia inteiro permite acrescentar o antigo hotel Monte Palace, o trilho da crista e um banho ou um passeio de caiaque na lagoa.

Qual é a melhor hora do dia para visitar Sete Cidades? +

De manhã cedo, antes das 10h, é a regra mais importante de todas. A caldeira enche-se de nuvem quase todos os dias até ao meio-dia — pode sair de Ponta Delgada com céu limpo e chegar lá e encontrar as lagoas completamente tapadas. Se a manhã estiver encoberta, tente outra vez duas horas depois: o tempo nos Açores muda depressa.

As duas lagoas de Sete Cidades têm mesmo cores diferentes? +

Têm, mas o contraste dramático das fotografias é exagerado por certas condições de luz. A Lagoa Verde e a Lagoa Azul têm mesmo tons diferentes, por causa da profundidade, da composição mineral e da vegetação em redor a refletir-se na água — mas num dia cinzento e sem sol podem parecer quase iguais. É o ângulo do sol que faz as fotografias saltar à vista.

Pode-se nadar em Sete Cidades? +

Pode. As duas lagoas estão abertas a banhos e há uma pequena zona de margem na aldeia, com água calma e pouco funda. Há aluguer de caiaques na aldeia, normalmente de maio a outubro, e consegue remar de uma lagoa para a outra pelo canal estreito que as liga.

É preciso carro para visitar Sete Cidades? +

Na prática, sim. Há autocarro a partir de Ponta Delgada, mas faz poucas viagens por dia e não pára em nenhum dos miradouros, só na aldeia. Um carro, ou uma excursão, é o que lhe permite ver a caldeira a partir da crista, que é o essencial. As empresas de aluguer em Ponta Delgada praticam cerca de 70 a 80 euros por dia.

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